O Passaril Real
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Canário de Moçambique

(Serinus mozambicus)
Por: Francesco Formisano

BIOLOGIA GERAL
Originário de África – pátria e terra natal dos serinus -  ocupa grande parte do continente negro ao Sul do Sahara, abarcando uma vastíssima área de distribuição, que vai desde a costa ocidental à oriental, atravessando a África central e estendendo-se até ao sul, até às regiões meridionais.
Neste contexto, o Canário de Moçambique adaptou-se a diferentes habitats, que vai desde zonas áridas e semi-áridas das regiões interiores centrais sub-saharianas, a bosques pluviosos da África tropical e equatorial, savanas, regiões montanhosas e orla costeira.    
Gregário, vagueia de forma errante em busca de alimento em bandos numerosos, às vezes confundido com outros géneros (ploceidos). As suas preferências alimentares são o painço e o milho cultivado, além de, claro está, sementes imaturas de outras gramíneas silvestres.
Também não desdenha caçar insectos e as suas larvas, que procura saltitando sobre o terreno ou entre os matagais, especialmente durante o período reprodutivo. Tal como acontece com todas as espécies que vivem a sul do Equador, a estação das chuvas dá início ao ciclo reprodutivo, cujo término dá origem ao grande crescimento de ervas do campo, com abundância de sementes em estado leitoso, muito adequadas para o desmame da prole. Nesta época desfazem-se os grande bandos e formam-se os pares (os casais antigos voltam a juntar-se). Os machos tornam-se territoriais, cantando a plenos pulmões (típico dos serinus) situados em cima das árvores, marcando o seu território, à espera de uma fêmea e enfrentando, ao mesmo tempo, os seus rivais.
O ninho, em forma de taça, construído por ambos os elementos do casal, com  elementos vegetais, radículas, com o interior acabado com pêlos de animais ou com as suas próprias plumas (do peito ou do abdómen), de delicada elaboração, está  situado na bifurcação dos ramos, no meio do matagal. As populações que vivem nas zonas interiores áridas, nas quais a vegetação é escassa, nidificam em colónias, renunciando a dividir o território.
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Colocam uma média de 3 a 4 ovos, 2 a 5 como mínimo e máximo, de cor branco pálido, que se tornam branco gesso se estiverem fecundados. Só a fêmea incuba, geralmente alimentada pelo macho no ninho, que abandona unicamente para fazer as suas necessidades fisiológicas, e afasta-se do mesmo apenas para despistar possíveis predadores.
A incubação dura entre 12 a 13 dias. Quando os ovos eclodem, os pequenotes, sem plumagem, apresentam o bico claro, com os ângulos internos bordeados de cor violeta, e o interior rosado. O contraste entre as cores, quando têm o bico aberto, é verdadeiramente notável.
São alimentados nos primeiros dias apenas pela mãe, com insectos tenros e com sementes imaturas de gramíneas, e depois por ambos os progenitores. Empreendem o primeiro voo ao cabo de cerca de duas semanas, e passadas outras duas, em que ficam confinados quase exclusivamente aos cuidados do macho, emancipam-se, unindo-se a outros indivíduos da mesma idade e da mesma espécie ou não, errando em busca de alimentos.
Enquanto isso, a fêmea continua com posturas sucessivas, com uma média de 3 ovos, sendo que o número varia de acordo com a disponibilidade de alimento.
A CRIAÇÃO EM CATIVEIRO
Graças às cores vivas do seu manto, o seu canto mais ou menos agradável e ao seu preço mais ou menos acessível, é certamente um  fringilídeo exótico muito importado. A sua abundante presença no mercado, combinada com o seu período de reprodução, que não coincide com o das nossas latitudes, estimulou pouco os aficionados a criarem esta espécie em pureza.A miúde o macho é utilizado pelos hibridistas, acasalado com fêmeas de outras espécies, tanto autóctones como exóticas, encabeçando esta lista o canário.
Criado com fins reprodutivos, alojaremos as aves em gaiolas de 55cm, providas de divisória, porque ocasionalmente o macho dá lugar a toda a sua fogosidade exuberante, perseguindo a fêmea. Há que separá-lo quando depois da postura a fêma incuba ou alimenta os pequenotes, sob pena de encontrar-se com os ovos ou o ninho destruídos ou os recém nascidos espalhados pelo fundo da gaiola, mortos. Inclusivamente em algumas ocasiões chegam a matar as suas companheiras.
À parte o seu temperamento um tanto ‘agressivo’, que poderemos obviar com o cuidado já mencionado da divisória, o Canário de Moçambique faz-se apreciar pela sua rápida capacidade de adaptação à vida em cativeiro. Para além disso, a alimentação que lhe damos, uma mistura de painço, milho alvo e alpista em pequena quantidade, resulta ser a ideal para esta espécie, e não um ‘substituto’, como para outras.
Acostuma-se facilmente a pedaços de maçã assim como às folhas (as mais tenras) das verduras do mercado. Quando tem pequenos no ninho, a espiga de painço seca estimula a alimentação dos casais e inclusivamente os pequenotes muito a apreciam, depois de empreender um voo, quando começam a rebuscar no chão.
É útil, na fase de preparação da reprodução, e mais ainda, durante o período de cria da prole, administrar-se proteína animal sob a forma de bicho da farinha (tenebrio molitor) ou larvas do mel. Este deve ser um procedimento diário repetido várias vezes ao dia. É preferível administrar os bichos da farinha sem cutícula (ainda brancos), para que sejam mais tenros e digeríveis, mas na falta destes, não há problema em dá-los com o exoesqueleto, já que os canários de Moçambique ‘chupam’ o seu conteúdo. Papa suave de ovo, ovo cozido, espigas de gramíneas silvestres, fáceis de encontrar para quem habita os campos, completam o menu.
O osso de choco e o grit devem estar sempre à disposição. A voracidade com que são consumidos pela fêmea é indicativo da proximidade da postura. Também é bom administrar carvão vegetal, muito indicado para eliminar gases intestinais.
Complementarmente à mistura mencionada, dou também, duas vezes por semana, uma colher de café por cabeça de uma mistura de sementes da saúde, depois do teste da germinabilidade, formada por: perillha, leituga, sésamo, níger, milho alvo e semente de erva.
As primeiras chuvas do final do verão estimulam os canários de Moçambique a entrar em cio. O auto-desplumar-se no peito (ambos os sexos) significa que chegou o momento dos criadores colocarem o suporte dos ninhos e o material adequado para fazê-lo. Como para outras espécies de serinus africanos, o macho colabora activamente na construção do ninho, e ocasionalmente toma decididamente a iniciativa, etimulando a fêmea a fazer o mesmo.
Durante a incubação outonal, em geral de Setembro a Novembro, dou porções abundantes de poligonáceas, como a perspicaria ou a digitaria, e também espigas de painço imaturas que cultivo pessoalmente. Bocadinhos de maçã, papa comercial, folhas tenras de alface, espinafre e acelga, desde o 5º dia; bicho da farinha (tenebrio molitor) para os primeiros 10-12 dias, em quantidade proporcional aos desenvolvimento dos filhotes. Não lhes dou ovo cozido porque a papa e as larvas da farinha garantem uma dose de proteína suficiente para as necessidades dos pequenos.
Nesta altura já é possível sexá-los com bastante precisão. Os machos apresentam as zonas de eleição – peito e coberta da cauda – amarelo intenso; as fêmeas, por seu lado, amarelo pálido ou esbranquiçado. O tom violáceo dos ângulos internos do bico desaparecem por volta do 10º dia.
O canário de Moçambique anilha-se com anilha do tipo A, como exige a comissão técnica, mas por vezes arrisco-me e utilizo anilha Z, porque considero que se adapta melhor à pata (NT: no “Passaril Real”, e de acordo com a lista oficial de medidas, usamos anilhas de 2,5 mm).
Devido a esta espécie conservar o período de cio do Hemisfério Sul e não ser sensível ao nosso foto período, nem sequer quando simulamos o seu, alterando as horas de luz artificialmente, quando se pretenda obter híbridos de Canário de Moçambique com outras espécies do nosso hemisfério, haverá que tentar adiantar o período de cio destas últimas, manipulando o foto período.
No que se refere ao nosso serinus e a casos de hibridação, não parece haver muitos problemas na hora de acasalar, inclusivamente com espécies de maior tamanho, como camachuelos, verdelhões, pintassilgos, por exemplo. É emocionante como consegue estabelecer uma relação afectuosa com o seu par, salvo quando inusitadamente desperte o seu ‘carácter’ e comece a criar dificuldades.
Não quero acabar este artigo sem exortar a criação desta espécie em pureza. Nestes últimos anos as importações reduziram-se drasticamente e parece que os tempos das vacas gordas chegaram ao fim. A reprodução em pureza das espécies selvagens é um dever para os criadores, porquanto a disponibilidade de exemplares criados em cativeiro desincentiva a captura dos mesmos em liberdade.
Devido a importações de diversas subespécies ao longo dos anos, hoje em dia podem encontrar-se, em criadores, pares constituídos por exemplares que não pertence à mesma subespécie. Eu aconselharia a quem quiser iniciar-se na criação deste simpático voador, que o faça com casais de exemplares da mesma subespécie e, melhor ainda, se conseguir, com casais de criadores que já se estejam a dedicar à respectiva criação, em vez de comprá-los a comerciantes de importação.
Por outro lado, há que ter em conta que uma recente norma da Comunidade Europeia proíbe a produção de híbridos entre pertencentes ao mesmo género, com a finalidade de salvaguardar o património genético de cada espécie.
Compartilho plenamente esta decisão e recordo, a nível informático, que a “COM” adoptou este normativo, vetando a participação em concursos debaixo da sua influência, a tais híbridos.
SUBESPÉCIES E DISTRIBUIÇÃO
Tendo em conta a enorme superfície sobre a qual se estende este pequeno passeiriforme adstrito à grande família dos Fringilídeos, género Serinus, subgénero Ochrospiza, conta com inúmeras subespécies: 10 para uns e até 12 para outros. Aventurando-me na sua descrição e correspondente área geográfica, entro num autêntico labirinto, esperando cometer o menor número de erros possíveis.
Obrigatoriamente partimos da subespécie nominal.
1. Serinus mozambicus mozambicus. Da zona costeira do Quénia, Tanzânia central, Ilha Mafia, até Moçambique central e oriental, através do Zimbawe até ao Transvaal. Também nas Ilhas Maurício, Reunião, Rodriguez e Almirante.
Parte superior verde escuro com desenho (plumas franjeadas de escuro).
Alto da cabeça verde brilhante. Cauda com toques esbranquiçados ou amarelados.
Bico cónico cinzento claro. Patas enegrecidas. Dentro da espécie são numerosas as variedades geográficas com diferenças pequenas, às vezes insignificantes.
2. Serinus mozambicus caniceps. Senegal, Costa de Marfim, Ghana, Mali, Togo, Benim e até à Nigéria e norte dos Camarões. Diferencia-se da espécie nominal pelo cinzento do alto da cabeça e da nuca. Dorso acastanhado, de cinzento claro e verde. Tudo isto em ambos os sexos. É a subespécie mais procurada por criadores europeus, já que devido à zona ‘nórdica’ da qual provém principalmente – Senegal – em relação às nossas latitudes, mantém o período de cio até ao princípio do verão.
3. Serinus mozambicus puntctigula. Camarões, zona costeira, montanha e savana. Similar à espécie nominal, apresenta um babete esbranquiçado debaixo do queixo. As populações de montanha são geralmente de tamanho maior, com as partes superiores mais verdes.
4. Serinus mozambicus barbatus. Desde o nordeste do Zaire ao Sudão, até ao Uganda e Quénia ocidental, nordeste da Tanzânia. Florestas, savana, campos cultivados. Semelhante ao Serinus m. Punctigula, mas com o amarelo das zonas de eleição e das partes inferiores mais claro.
5. Serinus Mozambicus somalyae. Sudeste do Zaire, Tanzânia ocidental e meridional, regiões limítrofes da Zâmbia. Em face da espécie nominal, as cores da plumagem são mais claras.
6. Serinus mozambicus tando. Bosques pluviosos do Zaire sudocidental, rio Kasá, centro e sul do Congo, Gabão meridional, até às regiões centrais de Angola. Introduzido em S. Tomé e Pagalu (golfo da Guiné). Ao contrário do serinus m. mozambicus, tem a cabeça e o dorso verde claro, com subtis estrias das extremidades da cauda de amarelo intenso. A população das ilhas (S. m. santhome) tem o desenho da parte superior mais marcado.
7. Serinus mozambicus vansani. Do sudeste de Angola, Namíbia, Zâmbia ocidental e meriodional ao Estadao de Botwana septentrional. Plumagem mais pálida e pontas da cauda brancas.
8. Serinus mozambicus granti. Moçambique meriodional, sul do rio Limpopo, e Transvaal oriental. Dorso verde escuro, partes inferiores de amarelo intenso, lados do peito e flancos oliváceos.
9. Serinus mozambicus grotei. Sudão oriental até Etritreia e Etiópia ocidental. Similar ao Serinus m. barbatus, mas com o dorso cinzento claro nas zonas de eleição. Partes inferiores amarelo pálido, estrias dos bigodes apenas esboçadas.
10.Serinus mozambicus gommaensis. Norte, centro e sul da Etiópia. Face ao Serinus m. grotei, as partes superiores são verde opaco, estrias amarelas na frente e superciliar menos amplo.

No geral, o tamanho oscila entre 9,5 e 11cm, Bico cónico cinzento claro (parte superior mais escura), patas enegrecidas.
Em todas as subespécies, as coberturas alares têm orlas amarelentas, ‘bigodes’ mais ou menos largos e amplos que, da base do bico, lateralmente, adornam os lados do pescoço.
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